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Como a reforma tributária impacta o agronegócio.
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Como a reforma tributária impacta o agronegócio.

Por Equipe Notrin •24 de julho de 2026•6 min de leitura•Gestão da Fazenda

Introdução

Durante décadas, tocar uma fazenda no CPF foi sinônimo de simplicidade. Nota quando dava, livro caixa no fim do ano, o patrimônio crescendo em terra e gado sem que ninguém precisasse colocar tudo no papel a valor de mercado. Essa lógica está acabando. A partir de 2026, o produtor entra num sistema em que cada venda, cada compra de insumo e cada movimento da propriedade passa a ser registrado de forma eletrônica, padronizada e rastreável — com ou sem CNPJ.

O problema não é só o imposto novo. É o que a rastreabilidade faz aparecer. Uma propriedade que sempre foi tocada no confiança vai ficar documentada de ponta a ponta. E, ao mesmo tempo em que isso acontece, o imposto sobre herança e doação mudou de regra: passou a ser calculado sobre o valor de mercado do que se transmite, com alíquota que sobe conforme o tamanho do patrimônio. Duas mudanças que, juntas, mexem com o bolso de quem produz e com o futuro de quem vai herdar.

Para a família que tem terra, gado, maquinário e, principalmente, participação em empresa rural, isso não é assunto de contador. É decisão de patrimônio, e a janela para tomá-la com calma é curta.

A reforma organiza a sua fazenda por fora. Quem não organizar a estrutura por dentro — patrimônio e sucessão — vai pagar essa organização em imposto.

O cenário atual

O calendário da reforma já está rodando. A fase de teste dos novos impostos começou em janeiro de 2026, e no dia 22 de julho um decreto adiou para 1º de janeiro de 2027 a obrigação de o produtor pessoa física ter CNPJ e emitir a nota fiscal no formato novo. O prazo anterior era julho de 2026.

Só que "adiado" não quer dizer "resolvido" — e o adiamento não vale para todo mundo. Os pontos que apertam hoje:

  • Quem já é pessoa jurídica não ganhou prazo nenhum. Empresa rural, sociedade, cooperativa: para esse grupo, continuam valendo as exigências de agosto de 2026, com os campos novos na nota fiscal.
  • O corte de R$ 3,6 milhões de receita bruta anual define tudo. Acima disso, o produtor é contribuinte dos novos impostos. Abaixo, fica de fora como não contribuinte — mas isso não significa que sai ileso.
  • Três números centrais do sistema ainda não foram fechados: o percentual do crédito que o comprador leva ao comprar de produtor não contribuinte, o efeito do imposto embutido no insumo, e a própria alíquota que vai valer em 2027. Nenhum deles depende do produtor, e todos afetam o preço na porteira.

E há o segundo movimento, o que quase ninguém no campo está olhando: em janeiro de 2026 foi sancionada a lei que fecha a regulamentação da reforma e mexe no ITCMD — o imposto sobre herança e doação. É aí que a conversa deixa de ser sobre nota fiscal e passa a ser sobre patrimônio.

Como isso afeta o seu patrimônio

Imagine uma família com 800 hectares tocados no CPF do pai, mais uma empresa que cuida do maquinário e do transporte da produção. Enquanto o pai está à frente, tudo funciona. O problema aparece no dia em que o patrimônio precisa passar para os filhos — e agora esse dia custa mais caro do que custava há dois anos.

Antes, o imposto sobre a transmissão era calculado sobre valores baixos, muitas vezes o histórico da declaração. Agora, a base de cálculo passou a ser o valor de mercado. No caso da participação na empresa, a avaliação segue o patrimônio líquido ajustado a valor de mercado, podendo incluir o valor do próprio negócio como marca e operação. Terra que valia "x" na declaração e vale "3x" no mercado passa a ser tributada pelo "3x".

O custo de não agir é simples de enxergar: a mesma fazenda, transmitida sem estrutura e sem planejamento, gera uma conta de imposto muito maior do que geraria se a família tivesse organizado a passagem com antecedência. E essa conta vence no pior momento possível — o do luto, com prazo curto e multa para quem atrasa.

Riscos mais comuns

  1. Transmitir tudo de uma vez, no valor de mercado, na maior alíquota. Sem planejamento, o patrimônio inteiro é avaliado de uma vez só, e a parte que ultrapassa cada faixa paga alíquota maior. Como a progressividade agora é obrigatória, quanto maior o bolo transmitido de uma vez, maior o percentual médio que a família paga.

  2. Descobrir tarde que a doação fatiada não escapa mais. Muita gente planejava doar aos poucos, ano a ano, para ficar sempre na faixa mais baixa. A regra nova soma as doações sucessivas do mesmo doador para o mesmo filho no mesmo período. Quem tentar dividir o patrimônio em fatias para pagar menos vai encontrar as fatias somadas de volta.

  3. Deixar a estrutura para depois de tudo estar consolidado. Desenho de holding, doação em vida, governança familiar — nada disso produz efeito no dia seguinte. Leva meses. Quem esperar as regras estaduais e a avaliação a valor de mercado se acomodarem por completo vai planejar num cenário em que as portas mais eficientes já se fecharam, e sob a pressão de um prazo que não escolheu.

O que fazer agora

O caminho aqui não é operacional — não é "preencha tal campo na nota". É estratégico. São três decisões, nessa ordem:

  1. Diagnóstico da situação atual. Antes de qualquer coisa, saber de que lado da linha a família está: receita bruta acima ou abaixo de R$ 3,6 milhões, somando todas as atividades e todos os CPFs e CNPJs envolvidos; qual patrimônio está no CPF e qual está em empresa; e quanto ele realmente vale a mercado hoje. Sem esse retrato, toda decisão vira chute.

  2. Desenho da estrutura ideal. Com o retrato na mão, definir a estrutura que faz sentido para o tamanho e o perfil da família — o que fica em pessoa física, o que vai para pessoa jurídica, se e como uma holding rural entra na conta, e qual o desenho de transmissão que reduz o imposto dentro da lei, sem improviso e sem promessa mágica.

  3. Implementação com governança. Estrutura sem regra de convivência entre os herdeiros dura pouco. A implementação precisa vir com governança familiar: quem decide o quê, como entram e saem os sócios, o que acontece em caso de conflito. É o que separa o planejamento que protege o patrimônio daquele que só adia o problema.

Conclusão

A reforma está fazendo pela sua fazenda aquilo que ela nunca teve: um registro completo, a mercado, de tudo o que existe ali dentro. Isso é bom para crédito, para negociação e para gestão. Mas transforma o patrimônio invisível em patrimônio tributável — e o imposto sobre a transmissão desse patrimônio acabou de ficar mais pesado e mais progressivo.

O produtor que organizar a estrutura por dentro, enquanto as regras ainda estão se acomodando, decide as próprias condições. Quem esperar vai decidir sob prazo, sob a maior alíquota e no pior momento. A diferença entre os dois não é sorte — é método.

Se você quer entender exatamente qual é a sua posição nesse cenário — o seu enquadramento, o impacto no caixa e o que a mudança do imposto sobre herança significa para o seu patrimônio —, o ponto de partida é um diagnóstico. A Notrin acompanha essa transição de perto junto a produtores e empresas do agro em Goiás, e é isso que fazemos: mostrar onde você está antes de dizer para onde ir.


Este conteúdo tem caráter informativo e reflete a legislação vigente em julho de 2026. As regras da reforma tributária e as leis estaduais sobre herança e doação seguem em processo de regulamentação e podem mudar. Cada situação exige análise individual.

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